Estamos próximos da cura da AIDS?
Apesar dos altos investimentos e dos mais renomados pesquisadores não pouparem esforços para encontrá-la, ninguém sabe dizer ao certo quando o mundo poderá respirar aliviado. A boa notícia é que o controle da multiplicação do vírus já é uma realidade para 70% dos portadores do HIV
POR ROSE MERCATELLI
No início de agosto de 2008, o jornal Financial Times, uma das publicações mais conceituadas do mundo, lançou um artigo afirmando que, apesar de organismos internacionais como o governo dos EUA terem investido dois bilhões de dólares em prevenção e medicamentos anti-retrovirais, o vírus HIV está ficando cada mais resistente aos tratamentos atuais. Diz a matéria: "Quando Nathan Clumeck examinou no ano passado 100 pessoas na República Democrática do Congo que tinham começado o tratamento contra HIV nos 12 meses anteriores, ele ficou chocado com o que descobriu. Trinta delas tinham variedades de vírus que resistiam aos remédios-padrão dados a novos pacientes. A atual abordagem aos tratamentos no mundo em desenvolvimento está contribuindo para a crescente resistência às drogas, adverte o professor Clumeck, diretor de doenças infecciosas no Hospital Universitário St.-Pierre na Bélgica que acrescenta: 'Estamos criando uma bombarelógio virológica".
Agora surgem as perguntas que não querem calar: será que os tratamentos atuais se tornaram mesmo uma bomba-relógio como teme o professor Clumeck, da Bélgica? Será que depois de tanto investimento, monetário e humano, a AIDS ainda pode voltar a se transformar numa ameaça para a humanidade, a exemplo do que aconteceu no século XIV, quando a Peste Negra, depois de cinco anos, dizimou um terço da população européia?
A comparação, que hoje parece um imenso exagero, já foi tida como uma grande possibilidade nos tempos em que se seguiram os primeiros registros da doença, quando o mundo científico tinha pouquíssimos dados concretos sobre ela, até mesmo sobre sua origem. Por causa desse desconhecimento, inúmeras informações equivocadas, como a que afirmava que a AIDS seria uma doença que atingia somente homossexuais, foram divulgadas por todas as mídias, gerando, além do medo, preconceitos. A desinformação, de certo modo, contribuiu para o avanço da doença em outros segmentos da sociedade.
Sob controle
Em 25 anos, porém, o panorama mundial mudou, felizmente, para melhor, ainda que na maioria dos países africanos e outros do continente asiático, como a Índia, a situação esteja longe de ser controlada. Entretanto, no Brasil, os pesquisadores podem dizer que o avanço da doença está sob controle e que valeu a pena cada centavo investido nos programas de prevenção e nos tratamentos atuais com medicações anti-retrovirais a que todos os brasileiros portadores do vírus têm acesso.
Essa é a opinião de Esper Kallás, médico infectologista, chefe do laboratório de Imunologia da disciplina de Infectologia e pesquisador da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e também pesquisador e coordenador do grupo de Pesquisas Clínicas da Universidade de São Paulo. "Os tratamentos com medicações anti-retrovirais que começaram a ser administrados em 1996, no estado de São Paulo, melhoraram as condições de saúde dos portadores do vírus HIV. Portanto, pelo menos aqui no Brasil, onde o tratamento é acessível a todos pelo SUS, não há nenhum motivo para questionamentos desse tipo", diz Kallás, em referência ao artigo do Financial Times.
PROGRAMA BRASILEIRO: REFERÊNCIA MUNDIAL
O país tem se destacado efetivamente em pesquisas clínicas, já que existe por aqui um grande número de pacientes potenciais voluntários e também inúmeros profissionais qualificados. Dessa forma, o Brasil tem participado de vários estudos internacionais para o desenvolvimento de medicamentos e também de vacinas preventivas: "No momento, não há drogas em desenvolvimento capazes de exterminar o vírus de vez.
Porém, as linhas de pesquisas buscam remédios capazes de controlar a multiplicação do vírus que se utilizem de um menor número de comprimidos e de doses menores ao dia e que também apresente menos efeitos colaterais de curto e longo prazos", conclui José Valdez Madruga.
Por fim, depois de 25 anos de pesquisas, a cura para a AIDS parece estar mais distante do que o desejado. Entretanto, graças aos programas de prevenção e os medicamentos anti-retrovirais que chegaram em 1996, a transmissão da AIDS já não apresenta, nem de longe, os números preconizados nos primeiros tempos. E o controle da multiplicação do vírus no organismo deixou de ser uma necessidade urgente almejada pelos médicos para se transformar em uma realidade ao alcance de milhões de pessoas que sobrevivem há mais de dez anos com o vírus ou com a AIDS.
Tempo de sobrevida Em 1998, no Brasil, morreram 25 mil pessoas em conseqüência da AIDS. Dez anos depois, esse número era menor que 10 mil. Em 1992, apenas 22,8% sobreviveram após 36 meses de acompanhamento da doença. Esse percentual subiu para 79,2% nos pacientes diagnosticados em 1997, depois do advento das medicações anti-retrovirais.
Além da queda no número de óbitos, depois do diagnóstico e do início do tratamento, o tempo de sobrevida tem aumentado de maneira significativa. A sobrevida mediana nos pacientes com mais de 12 anos, no período entre 1982 e 1989, era de apenas 5,1 meses. Os que tiveram o diagnóstico feito em 1995 e tomaram as primeiras medicações contra a doença, como o AZT, a sobrevida subiu para 16 meses. Já os que tiveram seus diagnósticos feitos a partir de 1996 e foram tratados com anti-retrovirais, o tempo de vida girou em torno de 58 meses. "Esses resultados devem-se à introdução dos anti-retrovirais na rede pública, associada à descentralização do atendimento, o que possibilita o diagnóstico precoce e a intervenção adequada sobre as infecções oportunistas", comenta Rosa Alencar, médica infectologista e gerente da área de Assistência Integral Saúde, da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo.
Vacina, um caminho difícil Outra pergunta que também insiste em vir à tona é: por que, depois de tanto tempo e investimento, ainda não foi criada uma vacina capaz de imunizar a população? A resposta não é tão simples assim, segundo os cientistas. Em setembro de 2008, o pesquisador russo Saladin Osmanov, coordenador da Iniciativa Conjunta de Vacina contra o HIV da Organização Mundial da Saúde e do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV e AIDS (Unaids) em uma conferência no Centro de Estudos do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), em Manguinhos, RJ, apontou as dificuldades encontradas no caminho da descoberta da vacina.
NENHUMA VACINA ATÉ AGORA CONSEGUIU FABRICAR ANTICORPOS CAPAZES DE DESTRUIR O VÍRUS. ENTRE OS MOTIVOS DESSE COMPLICADOR ESTÁ A ESCOLHA DO LOCAL ONDE O HIV SE INSTALA NO ORGANISMO: O SISTEMA IMUNOLÓGICO
Os primeiros testes clínicos para achar uma vacina que imunizasse sobre a AIDS, feitos a partir de vírus atenuado ou inativado, aconteceram no fim da década de 1980. Mas os pesquisadores logo perceberam que existiam dificuldades técnicas e em relação à biossegurança envolvida nesse processo que impediam a continuidade dessa linha de pesquisa.
A capacidade de mutação do vírus é tão grande e rápida que dificulta a obtenção de resultados: "Esse fato sempre representou um obstáculo a ser transposto. Mas temos observado nos últimos anos um aumento do número de cepas recombinantes do vírus. Desse modo tem sido mais complicado estudar a epidemiologia do HIV e desenvolver produtos que possam ser capazes de imunizar contra todas as variantes do vírus", afirmou Osmanov.
À procura de novas vias
Nenhuma vacina até agora conseguiu estimular a fabricação de anticorpos capazes de destruir o vírus. Entre os motivos desse complicador, está a escolha do local onde o HIV se instala no organismo: o sistema imunológico. Lá, o vírus ataca um tipo de glóbulo branco (célula de defesa) chamado CD4 e aloja seus genes no DNA da célula atingida, passando a utilizá-la para se multiplicar e, com isso, contaminar novas células. Ora, com a multiplicação extremamente rápida do inimigo, as células do sistema imune começam a ficar combalidas e perdem a capacidade de proteger o organismo, produzindo substâncias conhecidas como anticorpos, as verdadeiras "armas" contra uma infinidade de doenças. Ou seja, com o seu quartel-general abarrotado por tropas inimigas, o sistema imunológico se sente totalmente incapaz de cumprir o seu papel.
Por isso, Osmanov acredita ser necessário encontrar novas abordagens para obter uma vacina capaz de atuar em várias frentes. A alternativa é buscar uma maneira de acionar vários elementos do sistema de defesa ao mesmo tempo, como as células T, que atuam contra o vírus HIV e as células B, ligadas à fabricação de anticorpos.
Entretanto, em setembro último, a empresa farmacêutica Merck desistiu publicamente da pesquisa de vacina que estava sendo considerada a esperança dos pesquisadores. Seus estudos seguiam exatamente nessa nova direção. Quer dizer, em vez de estimular a produção de anticorpos, o projeto Merck visava a fazer com que o organismo incrementasse seu sistema imune, aumentando a produção de células T: "Esperávamos que a vacina, mesmo que não fosse capaz de imunizar totalmente ou impedir a infecção, pelo menos conseguisse conter o desenvolvimento do vírus, o que não ocorreu", disse o pesquisador Esper Kallás, coordenador da pesquisa, que contava no Brasil com 125 voluntários. A pesquisa foi realizada em outros oito países, com um total de 741 voluntários, sendo que 24 pessoas do grupo que recebeu a vacina se contaminaram por falta de uso de preventivos nas relações sexuais, ainda que tenham sido advertidas pelos pesquisadores que deveriam praticar o sexo seguro.
Enquanto a cura não vem
O mundo científico continua investindo em pesquisas voltadas para novos medicamentos que possam impedir, ou pelos menos, controlar a multiplicação dos vírus HIV dentro das próprias células do sistema imunológico. Ultimamente, têm surgido pesquisas para o desenvolvimento de novos medicamentos capazes de atuar sobre os vírus resistentes aos anti-retrovirais já em uso. Isso porque os 30% dos pacientes que apresentaram resistência ao tratamento, dado que tanto assustou o pesquisador belga Clumeck, citado no início da matéria, é um fato esperado e previsto por todos os estudiosos da AIDS. "Em um grupo de 100 pessoas com medicação anti-retroviral, depois de um tempo em 70 indivíduos, o vírus HIV vai estar perfeitamente controlado. Porém, os 30 restantes vão apresentar resistência ao tratamento", afirma Kallás.
Quem explica o fator resistência é José Valdez Madruga, infectologista, pesquisador responsável pela Unidade de Pesquisa de Novos Medicamentos do Centro de Referência e Treinamento DST/AIDS-SP: "O vírus HIV multiplica-se rapidamente. Dessa maneira, milhares de novas partículas virais são formadas todos os dias. Devido a essa rápida replicação, surgem as mutações de resistência".
O único caminho é a medicação
"Fiquei sabendo que era portador do vírus HIV em 1989. Desde esse tempo fiz todos os tratamentos disponíveis. Em 1990, comecei com o AZT. Depois passei a tomar o DDI. Em 1996, comecei com o tratamento anti-retroviral. Tomei várias medicações. Uma delas até era muito enjoada porque eu tinha de ficar três horas em jejum. Mas, apesar disso, sempre segui o programa à risca. Tomei várias combinações até que meu organismo aceitou bem uma delas. Hoje, tomo apenas quatro comprimidos ao dia, sem sentir nenhum efeito colateral. O melhor de tudo é que estou há quase 20 anos com o vírus, mas nunca desenvolvi nenhum sintoma. Ou seja, apesar do HIV presente há tanto tempo, não tenho AIDS e levo a vida como qualquer pessoa saudável."
JORGE, 59 ANOS, PROFESSOR E ATIVISTA DO GRUPO INCENTIVO À VIDA (GIV)
Isso significa que as mutações de resistência são aminoácidos (pedaços de proteínas) diferentes que se incorporam à seqüência do DNA do vírus, modificando a carga genética original do HIV. Daí o medicamento (ou a vacina), resultado de pesquisas baseadas em um vírus HIV que apresente sua cadeia genética original, deixa de fazer efeito sobre um outro microorganismo que apresente seu código genético modificado.
"Em geral, essas mutações acontecem quando o nível do medicamento anti-retroviral no sangue está baixo, o que ocorre quando o paciente não toma medicação corretamente. Nesse caso, essas mutações se fixam na seqüência viral, causando resistência aos medicamentos por parte do vírus com a genética modificada", exemplifica Valdez.
FONTES: COMUNICAÇÃO / INSTITUTO OSWALDO CRUZ (IOC), RJ; CENTRO DE REFERÊNCIA E TREINAMENTO DST/AIDS (CRT-DST/AIDS), SEDE DA COORDENAÇÃO DO PROGRAMA ESTADUAL DST/AIDS, ÓRGÃO VINCULADO À SECRETARIA DE ESTADO DA SAÚDE DE SÃO PAULO.

Os Cartuns que ilustram algumas matérias fazem parte do acervo da 1º Festival Internacional de Humor DST & Aids.
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